Flacon By Kilian Angels' Share Eau de Parfum

Perfumes orientais: família olfativa, notas e como usar

Um perfume oriental não indica uma origem geográfica, mas uma família olfativa construída com âmbar, baunilha, incenso, especiarias e resinas. Quatro exemplos do catálogo mostram os subtipos mais comuns e como reconhecê-los numa ficha de produto.

A etiqueta «perfume oriental» num frasco não descreve um país ou uma região, mas uma família olfativa construída com matérias quentes: âmbar, baunilha, incenso, especiarias doces e resinas. Nos últimos anos, muitas casas de perfumaria deixaram de usar a palavra «oriental» e passaram a preferir o termo «ambrado» para a mesma composição de base. A diferença é importante sobretudo quando lês a ficha de um perfume, porque podes encontrar qualquer um dos dois termos associado às mesmas matérias, dependendo da data da descrição.

Algumas referências úteis antes de aprofundares o tema:

  • A família oriental/ambrada reconhece-se pelas notas de fundo, não pelas notas de topo: âmbar, baunilha, incenso, resinas e especiarias quentes.
  • «Oriental» e «ambrado» designam hoje a mesma família na maioria das classificações de perfumaria usadas pela indústria.
  • No nosso catálogo, a família tem várias facetas — gourmand, especiada-amadeirada, floral ambarada e floral frutada —, cada uma com um equilíbrio diferente entre as matérias.
  • A densidade destes perfumes sente-se de forma diferente com o frio e com o calor, o que influencia diretamente quando vale a pena usá-los.

O que significa «perfume oriental» e porque muitas marcas lhe chamam hoje «ambrado»

O termo «oriental» vem das classificações ocidentais de perfumaria, que agrupam matérias densas e quentes — âmbar, baunilha, incenso, especiarias — sob uma única designação, sem relação com o local onde estes perfumes são produzidos. A roda olfativa de Michael Edwards, uma das classificações de referência da indústria, usou a designação «Oriental» nas versões de 1983 e 2008; depois, na versão de 2010, passou a chamar à família «Amber», mantendo «Oriental» como designação anterior, conhecida do grande público (fonte: Fragrance wheel, Wikipedia). A nova classificação divide a família em quatro subfamílias — âmbar suave, âmbar propriamente dito, âmbar amadeirado e âmbar floral —, o que explica por que razão, sob a mesma designação, encontras tanto perfumes gourmand como outros mais amadeirados ou florais.

Para quem compra, só uma coisa importa na prática: a etiqueta de um perfume pode usar «oriental» ou «ambrado» para a mesma composição, dependendo de quando a ficha de produto foi escrita e do estilo da casa que o vende. Uma ficha mais antiga dirá «oriental», enquanto uma recente dirá «ambrado» ou «amber», mas as matérias a que a palavra se refere continuam a ser as mesmas.

Porque não está relacionado com uma região geográfica específica

O nome surgiu numa época em que a perfumaria ocidental descrevia qualquer composição densa, com resinas e especiarias, como «exótica», sem verificar de onde vinham realmente as matérias-primas ou onde o próprio perfume era fabricado. Na prática, um perfume desta família pode ser criado e produzido em qualquer lugar — em França, em Itália ou no Dubai —, porque a designação descreve uma estrutura olfativa, não a origem do produto. Se te interessa saber de onde vem realmente uma matéria desta família, como o âmbar ou o oud, outra matéria frequentemente associada aos perfumes orientais, vale a pena consultar os detalhes separadamente, para cada matéria.

As matérias que dão uma sensação de calor: âmbar, baunilha, incenso, especiarias e resinas

Quatro tipos de matérias explicam por que razão um perfume desta família se sente «pesado» e quente na pele. O âmbar, muitas vezes sob a forma de ambroxan sintético, confere a base pulverulenta e quente que persiste durante mais tempo; por ser a matéria com maior influência na família, tem um artigo próprio — o âmbar, o âmbar cinzento e o ambroxan explicados em detalhe. A baunilha aparece quase sempre na base e aproxima a composição da vertente gourmand, sobretudo quando combinada com praliné ou caramelo; os subtipos de baunilha do nosso catálogo são explicados separadamente, no artigo sobre perfumes de baunilha.

O incenso e as resinas, como o benjoim e o ládano, acrescentam uma faceta fumada, quase eclesiástica, mais austera do que a baunilha por si só — daí a sensação solene de alguns perfumes orientais clássicos. As especiarias quentes, sobretudo a canela e o açafrão, aparecem frequentemente na abertura ou no coração da pirâmide e assinalam, em geral, a faceta mais especiada da família.

Quatro subtipos da família oriental, com exemplos do nosso catálogo

Na mesma família cabem composições muito diferentes, porque a proporção entre âmbar, baunilha, especiarias e notas florais ou amadeiradas altera a forma como o perfume se sente na pele. Quatro exemplos do nosso catálogo ilustram esta variação, cada um pertencente a um subtipo diferente.

O subtipo mais fácil de reconhecer é o gourmand, que traz para primeiro plano doces reais: conhaque, praliné, caramelo. By Kilian Angels' Share abre com conhaque ligeiramente alcoólico, passa pela canela, fava-tonca e carvalho e, depois, assenta numa base de praliné, baunilha e sândalo; o próprio catálogo classifica-o como «ambrado gourmand».

Frasco de By Kilian Angels' Share Eau de Parfum
By Kilian Angels' Share, exemplo do subtipo gourmand da família oriental, com conhaque, praliné e baunilha.

No extremo oposto, o subtipo especiado-amadeirado dá destaque às especiarias e à madeira seca, não aos doces. Xerjoff 1861 Naxos começa com limão, bergamota, lavanda e incenso de Omã, passa por jasmim sambac, mel e canela e, depois, evolui para baunilha, tabaco e fava-tonca; a marca descreve-o como um perfil aromático-especiado, uma homenagem à Sicília (fonte: Naxos, página oficial da Xerjoff).

Um terceiro registo, o floral ambarado, acrescenta flores à base quente sem resvalar para o gourmand. Amouage Guidance abre com pera, incenso e avelã, prossegue com açafrão, rosa, jasmim sambac e osmanthus e termina em ládano, sândalo, âmbar cinzento e baunilha; a marca classifica-o oficialmente como Floral | Amber (fonte: Guidance, página oficial da Amouage).

O último dos quatro, floral frutado com base ambarada, começa com frutos ácidos e acaba também na vertente quente da família. Maison Crivelli Hibiscus Mahajád começa com romã, groselha-preta, hortelã e canela, passa por um coração de rosa-damascena e chá de hibisco e, depois, evolui para baunilha, benjoim, couro e semente de ambreta; a casa descreve o extrato como sensual, com um rasto muito persistente (fonte: Hibiscus Mahajád, página oficial da Maison Crivelli). Se te interessa a faceta gourmand de cacau e café, explorada por outra via, o artigo sobre perfumes de chocolate e café aprofunda o tema sem o repetirmos aqui.

Como reconhecer o subtipo numa descrição de produto

A referência mais simples são as notas de topo e de coração, não as de fundo, porque a maioria dos perfumes orientais acaba por ter baunilha, âmbar ou resinas na base. Conhaque, praliné ou caramelo na primeira parte da pirâmide indicam um subtipo gourmand; canela, açafrão ou tabaco com madeira seca indicam um subtipo especiado-amadeirado; rosa, jasmim ou osmanthus com âmbar cinzento indicam um subtipo floral ambarado; e frutos ácidos, como romã, groselha ou pêssego, sobre uma base também quente indicam um subtipo floral frutado. A ficha de cada produto do nosso catálogo apresenta explicitamente estas notas, divididas em topo, coração e base, tal como acima.

Quando usar um perfume oriental: estação, hora e densidade na pele

A base densa de âmbar, baunilha e resinas é confortável com tempo frio, quando a temperatura mais baixa da pele abranda a evaporação e permite que as notas se desenvolvam à vontade. Com muito calor, as mesmas matérias podem tornar-se sufocantes, porque a temperatura elevada da pele acelera a evaporação e faz com que as notas de fundo se destaquem mais depressa do que seria desejável. Por isso, a maioria destes perfumes é naturalmente descrita como adequada para o outono, o inverno e a noite, períodos em que a sua projeção se destaca mais do que de manhã ou em pleno verão.

A densidade de um perfume oriental avalia-se melhor diretamente na pele do que no papel, porque a absorção e a temperatura do corpo alteram a evolução das notas de fundo de pessoa para pessoa. Duas pessoas que usem o mesmo perfume podem sentir uma base mais doce ou mais amadeirada, dependendo do pH da pele e do seu grau de hidratação na zona onde o aplicam.

Como testar um perfume oriental antes de comprar um frasco inteiro

Como esta densidade se sente de forma diferente em cada pele, algumas noites a usar um decant de 3 ml dizem mais do que um teste rápido de alguns minutos num papel ou no pulso, numa loja. O guia de tamanhos indica quantas pulverizações se conseguem fazer com um decant, consoante a capacidade, para poderes calcular antecipadamente quantas noites de teste tens disponíveis antes de decidires comprar um frasco inteiro.

Os perfumes contêm álcool e algumas das substâncias declaradas como alergénios a nível europeu, pelo que testar o produto numa pequena zona da pele antes da primeira utilização completa é uma precaução útil, sobretudo no caso de composições densas, com uma elevada concentração de resinas e especiarias. Evita aplicar na pele irritada ou ferida e mantém o decant afastado dos olhos e fora do alcance das crianças. Se estás grávida, sofres de asma ou tens alergias conhecidas a perfumes, fala previamente com um médico, porque as reações individuais variam e não podem ser previstas apenas com base na descrição das notas.

Quando reconheces o âmbar, a baunilha, o incenso e as especiarias quentes como a base comum da família, a etiqueta «oriental» ou «ambrado» num frasco deixa de ser um mistério e torna-se uma indicação clara do que esperar na pele — e um decant dá-te o tempo necessário para descobrires qual dos quatro subtipos se adequa melhor a ti.