Flacon Maison Francis Kurkdjian Baccarat Rouge 540 Eau de Parfum

Como se faz um perfume: das matérias-primas à composição final

Do briefing abstrato de uma casa e do limite de preço por litro de concentrado à maturação, filtragem e engarrafamento, com três exemplos reais de perfumistas do nosso catálogo.

Um perfume começa quase sempre com um briefing escrito por uma casa ou por um cliente, não com um frasco já imaginado. O perfumista recebe uma ideia expressa muitas vezes em termos abstratos — um estado de espírito, uma recordação, uma estação do ano — e um limite de preço por litro de concentrado, que lhe indica desde logo quais as matérias-primas que pode usar. A partir daí, o processo passa pela escolha de matérias-primas naturais e sintéticas, pela construção da fórmula em camadas de notas, por um período de maturação e filtragem e, só no final, pelo engarrafamento da composição aprovada. Cada etapa deixa uma marca no aroma final, desde a densidade das notas de base até à limpidez do líquido no frasco.

  • Tudo começa com um briefing e um limite de preço por litro de concentrado, não com uma receita fixa definida desde o início.
  • As matérias-primas pertencem a duas famílias — naturais, extraídas de plantas, e sintéticas, obtidas por síntese orgânica — e, regra geral, combinam-se em vez de se excluírem.
  • A fórmula é construída em camadas — notas de topo, de coração e de base — e pode passar meses ou anos a ser aperfeiçoada antes da aprovação final.
  • Depois de aprovada, a composição é macerada, filtrada e só então engarrafada.

Tudo começa com um briefing

Antes de existir uma fórmula, existe um briefing. Na maioria das vezes, vem de uma casa de moda ou de um cliente externo e descreve o perfume pretendido em termos abstratos ou até poéticos — uma emoção, um lugar, uma pessoa imaginada — acompanhado por um limite de preço por litro de concentrado que determina, na prática, que matérias-primas podem entrar na fórmula (fonte: Perfumer – Wikipedia). Um orçamento mais reduzido exclui desde logo alguns ingredientes naturais raros, razão pela qual o preço de um perfume também depende daquilo que o perfumista pode usar, e não apenas do marketing. Se te perguntas porque é que alguns frascos custam consideravelmente mais do que outros, os motivos por detrás do preço elevado de alguns perfumes explicam mais detalhadamente a relação entre os materiais e o custo.

O perfumista não apresenta uma única versão vencedora à primeira tentativa. Partindo do briefing, propõe várias misturas de teste e, quando o cliente aprova uma delas, o perfumista «ganha» aquele briefing — mas o aperfeiçoamento prossegue muitas vezes durante meses ou até anos, orientado por um painel ou por um diretor artístico que pede ajustes sucessivos (fonte: Perfumer – Wikipedia).

Quem dá o briefing: uma casa, um cliente ou até o próprio perfumista

O briefing pode vir de uma casa de moda que queira lançar o seu primeiro perfume, de um cliente externo que encomende uma composição para a sua própria marca ou, mais raramente, do próprio perfumista, que propõe uma ideia a uma casa. Em qualquer uma destas situações, o ponto de partida é o mesmo: uma descrição do estado de espírito pretendido, não uma lista de ingredientes.

Matérias-primas: naturais e sintéticas

Um perfume combina, regra geral, matérias-primas naturais com componentes sintéticos, e estas duas famílias não se excluem: complementam-se. As matérias-primas naturais — flores, cascas de citrinos, resinas, madeiras, sementes, raízes — são obtidas por extração com solventes (maceração), por destilação a vapor ou por prensagem mecânica, no caso das cascas de citrinos; a antiga técnica de extração por enfleurage está hoje, em grande parte, abandonada (fonte: Perfume – Wikipedia).

Os componentes sintéticos são obtidos por síntese orgânica e alguns deles, como o linalol ou a cumarina, também existem na natureza, mas são produzidos sinteticamente porque o resultado é mais consistente de lote para lote e mais acessível em termos de preço. Os almíscares sintéticos também substituíram quase por completo os almíscares de origem animal usados antigamente na perfumaria (fonte: Perfume – Wikipedia). Isso não significa que uma nota sintética seja inferior a uma natural; significa apenas que o perfumista escolhe a ferramenta adequada para garantir a estabilidade e controlar o custo da fórmula.

Como se extraem as matérias-primas naturais

Cada matéria-prima natural requer um método adequado à sua estrutura: as flores delicadas são muitas vezes submetidas a extração com solventes, as madeiras e as resinas a destilação a vapor, e as cascas de citrinos são prensadas mecanicamente para libertar o óleo essencial sem o aquecer.

Porque é que a fórmula também inclui componentes sintéticos

Um componente sintético é incluído na fórmula porque a matéria-prima natural equivalente é rara ou instável, ou porque a versão sintética oferece uma concentração consistente, lote após lote — uma vantagem importante quando um perfume tem de cheirar de forma idêntica em cada frasco produzido.

A fórmula: como se constrói um perfume em camadas

Muitos perfumistas não começam do zero com cada componente: usam «bases de perfume», misturas pré-fabricadas e reutilizáveis, para esboçar rapidamente um conceito antes de o desenvolverem (fonte: Perfume – Wikipedia). Depois de definida a direção, a fórmula organiza-se em três camadas, que se revelam com o tempo, à medida que a composição seca na pele: as notas de topo, as mais voláteis, surgem primeiro, em poucos minutos; as notas de coração instalam-se a seguir e formam o caráter central do perfume; as notas de base, as mais persistentes, permanecem até ao fim e sustentam o aroma durante horas.

A passagem da primeira versão para a fórmula final não é um passo, mas um processo que se prolonga no tempo. Depois de o cliente aprovar uma direção, o perfumista continua a ajustar as proporções, por vezes durante meses ou anos, até que todas as partes envolvidas considerem que a fórmula está pronta para produção.

Notas de topo, de coração e de base

A estrutura em três camadas explica porque é que um perfume cheira de forma diferente ao fim de dez minutos e ao fim de três horas: as notas de topo desaparecem depressa, as notas de coração assumem o papel principal e as notas de base continuam a ser as mais percetíveis no final da utilização.

Da primeira versão à fórmula aprovada

A aprovação de uma fórmula não significa o fim do trabalho, mas o início de um aperfeiçoamento mais minucioso, em que o perfumista ajusta pequenas quantidades de um ou outro ingrediente até que a composição corresponda exatamente ao que o cliente pretendia.

Macerar, filtrar e engarrafar

Depois de aprovada a fórmula, o óleo perfumado é misturado com álcool etílico e água e deixado em tanques durante algumas semanas, para que os ingredientes se integrem; só depois a composição é filtrada, para eliminar os sedimentos e as partículas restantes, antes de ser colocada nos frascos (fonte: Perfume – Wikipedia).

A proporção de óleo perfumado no líquido final é o que, em termos gerais, distingue o Extrait de Parfum, o Eau de Parfum e o Eau de Toilette: o Extrait de Parfum contém, regra geral, cerca de 15-30% de óleo, o Eau de Parfum cerca de 15-20% e o Eau de Toilette entre 5-15%, enquanto o Eau de Cologne é muito mais diluído, com cerca de 2-3%. Estes intervalos são aproximados e variam de marca para marca, por isso o rótulo, por si só, não te diz quão intenso será o aroma (fonte: Perfume – Wikipedia). Se quiseres saber em detalhe o que significa concretamente uma concentração de Eau de Parfum, o artigo dedicado ao Eau de Parfum aborda o tema mais aprofundadamente.

Porque é que a composição fica a maturar antes de ser filtrada

O período de maturação no tanque permite que os ingredientes se misturem completamente, para que o aroma final seja homogéneo e não uma sobreposição de notas distintas que ainda não «assentaram».

A filtragem e o enchimento dos frascos

A filtragem elimina as partículas finas que restam das matérias-primas naturais, para que o líquido que chega ao frasco seja límpido e estável a longo prazo, sem sedimentos visíveis no fundo.

A assinatura do perfumista: três exemplos do nosso portefólio

O processo descrito acima continua a ser abstrato até o associares a nomes reais. Três perfumistas por detrás de composições que também encontras nos nossos decants mostram como é, na prática, o percurso do briefing ao frasco.

Francis Kurkdjian e a encomenda da Baccarat

Francis Kurkdjian formou-se na ISIPCA, onde concluiu os estudos em 1993, e construiu a sua reputação ao criar Le Male para Jean Paul Gaultier, em 1995. Em 2013, a casa de cristal Baccarat encomendou-lhe uma composição para assinalar os 250 anos da sua existência, inicialmente vendida apenas em frascos de cristal (fonte: Francis Kurkdjian – Wikipedia). O resultado desse briefing é Baccarat Rouge 540, o perfume do exemplo abaixo.

Frasco de Maison Francis Kurkdjian Baccarat Rouge 540 Eau de Parfum
Baccarat Rouge 540, criado por Francis Kurkdjian para a encomenda da Baccarat de 2013.

Dominique Ropion e os perfumes de Frédéric Malle

Dominique Ropion formou-se na escola de Grasse, atualmente dirigida pela Givaudan, e trabalha na International Flavors & Fragrances (IFF) desde 2000. Entre as suas composições para Frédéric Malle está Portrait of a Lady, lançado em 2010 (fonte: Dominique Ropion – Wikipedia).

Frasco de Frédéric Malle Portrait of a Lady
Portrait of a Lady, criado por Dominique Ropion para Frédéric Malle em 2010.

Quentin Bisch e o briefing aberto da Amouage

Quentin Bisch, perfumista na Givaudan, recebeu de Renaud Salmon, diretor criativo da casa Amouage, um briefing aberto, sem uma direção olfativa imposta, do qual resultou Guidance, descrito posteriormente pela própria casa como a composição de maior sucesso da sua história (fonte: Quentin Bisch – Wikipedia). A Amouage continua a ser uma casa de nicho e, se quiseres perceber melhor o que significa esta categoria e em que difere dos perfumes de designer, o perfume de nicho explicado aprofunda o tema.

Frasco de Amouage Guidance
Guidance, criado por Quentin Bisch para a Amouage a partir de um briefing aberto.

Conclusão

Quando percebes que um perfume é o resultado de um briefing, de matérias-primas cuidadosamente escolhidas e de uma fórmula aperfeiçoada ao longo de meses ou anos, o frasco na prateleira ganha outro significado: não é apenas um aroma agradável, mas uma decisão criativa concreta, tomada por uma pessoa específica, num momento específico. Um decant permite-te apreciar essa «fórmula» durante dias, antes de decidires se queres o frasco inteiro e, se quiseres saber exatamente como funciona o processo de decantação connosco, a página «Como funciona» explica os passos. E se, depois de usares um perfume que te convenceu, te perguntares como reconhecer um frasco original e distingui-lo de um que apenas imita a fórmula, o perfume original explicado é o próximo passo natural.